Antologio

A freira abolicionista (🇬🇫 Guiana Francesa) / Planeta

Luis Pellegrini, revista Planeta nº 509, de maio de 2015. Artigo Tour da Liberdade - A Rota das Abolições, lançada a partir de um projeto da Unesco, na província da Franche-Comté, é hoje um dos mais estimulantes itinerários turísticos da França.

Em Jallanges nasceu e viveu madre Anne-Marie Javouhey, filha de um abastado fazendeiro que se tornou personagem notável da saga abolicionista. Sua casa abriga hoje algumas freiras da ordem que ela fundou e conserva ainda o mobiliário original. São essas freiras que conduzem os visitantes e apresentam-lhes a história da fundadora.

Embora religiosa e devota, Anne-Marie tinha personalidade forte. Nascida em 1779 e tornada freira em 1807, ela foi mandada para a Guiana Francesa em 1828. Lá, tomou contato pela primeira vez com os horrores da escravidão e se rebelou contra ela. Pragmática, logo percebeu que não tinha poder para uma ação política efetiva, mas decidiu fazer tudo ao seu alcance em prol da abolição. Com a herança paterna, começou a comprar escravos, a fim de libertá-los. Antes disso, porém, ela os preparava durante alguns anos, ensinando-os a ler e a escrever, a desempenhar algum ofício, a desenvolver a sua consciência de homens e mulheres livres. Quando o escravo estava pronto, ganhava um certificado de libertação, roupas decentes e… um par de sapatos. Seriam os primeiros calçados da sua vida. Em quase todos os países escravagistas das Américas (Brasil inclusive), os escravos não podiam usar sapatos…

Anne-Marie comprou­ terras na Guiana e nelas fundou uma cidade, Maná, para onde se mudou com todas as irmãs da ordem e centenas de libertos ou escravos em processo de libertação. Foi então chamada pelo cardeal de Caiena, a capital da província. Como no Brasil e na maior parte dos países americanos, a Igreja era dona de escravos e auferia grandes lucros com o tráfico. Autoridade máxima da Igreja na colônia, o cardeal ordenou que Anne-Marie abandonasse imediatamente seu projeto, sob pena de excomunhão. A resposta que ela deu está nos anais da história das abolições: “Pode me excomungar, eminência. Minha consciência limpa é mais importante do que todos os lucros que a Igreja possa auferir com esse negócio infame”.

Anne-Marie foi realmente excomungada. Mas nunca deixou o hábito de religiosa e voltou para Maná, onde continuou sua obra com recursos próprios. Cerca de dois anos depois, foi reabilitada pela Igreja e prosseguiu até o fim libertando escravos. Hoje, seus despojos descansam no Panteão da França.

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